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A cidade ideal foi discutida em Óbidos

“A cidade ideal é a que não precisa de utopias, é uma cidade livre, onde existe o reconhecimento das diferenças”, afirmou o presidente da câmara do Porto, Rui Moreira, num debate organizado pelo Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, cujo tema era justamente “A cidade ideal”.

“Tenho medo das utopias, quase fomos exterminados por elas no século passado”, sublinhou o autarca, antes de desvalorizar outro item habitualmente associado ao sucesso cultural de uma cidade – o dinheiro. “Em Portugal vivemos, desde há muito tempo, com o “complexo de mafra”, aquilo que fazemos excessivamente são templos, e cada um quer ter um templo maior do que o do vizinho. Mas sempre foi mais importante o recheio do que o fachadismo.”

Para Rui Moreira, esse recheio, ou aquilo que torna uma cidade diferenciada para os turistas (“que não desejam visitar cidades para ver apenas outros turistas”) e “confortável” e “interessante” para os seus habitante, é a existência de “espaços comuns de convívio e de partilha, que sejam formativos e informativos, e incluam as pessoas, não apenas como espectadores mas também como participantes. E isso não tem nada de utópico”.

Também presente na mesa, o ex-autarca de Lisboa, João Soares, que não se cansou de elogiar o trabalho desenvolvido recentemente no Porto, secundou Rui Moreira na depreciação do dinheiro como elemento chave da cultura e da construção de cidades ideais. E deu como exemplo de um caso em que “a montanha pariu um rato” a Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994, considerando que se gastaram milhões para não ficar “nada de substancial”.

Conciliar a tradição e o património com o “impulso da contemporaneidade” foi outra das ideias avançadas por Rui Moreira, que deseja uma cultura presente nas ruas, nos parques, em todos os sítios em que “as pessoas não esperam que ela apareça”. Lembrando um expediente utilizado pelo anterior executivo da cidade, que frequentemente apagava as intervenções de artistas urbanos – “chegámos a ter obras do Vhils, em paredes do Porto, que foram pintadas de branco -, Rui Moreira afirmou o atual apoio da autarquia a essas manifestações. E lembrou ainda os fins de semana em que a cidade era “virada de pernas para o ar” com corridas de carros que custavam “3 milhões de euros” e não deixavam nada, contrapondo o orçamento dispendido no teatro municipal, que apresenta programação ao longo do ano inteiro.

Outro dos intervenientes na sessão foi Humberto Marques, presidente da câmara de Óbidos, que apresentou a sua vila como exemplo de um teritório de baixa densidade demográfica que se conseguiu afirmar em Portugal e no estrangeiro através do investimento numa cultura viva.

Fonte: Jornal de Notícias

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