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“Knut Hamsun e Saramago são os mais importantes do século XX”

Não é grande apreciador de festivais literários, mas Jón Kalman Stefánsson não recusa a presença quando acontecem em países onde está a ser traduzida a sua obra. É o caso do Folio, em Óbidos.

É muito pouca a literatura que chega da Islândia e uma das coisas boas da segunda edição do Festival Literário Folio é levar a Óbidos autores dessa ilha. Como Jón Kalman Stefánsson, que nasceu em Reiqueavique em 1963, amplamente premiado e traduzido, de quem a editora Cavalo de Ferro está a publicar O Coração do Homem, o volume final de uma trilogia passada no norte do país, no início do século passado.

É a primeira vez que o autor vem a Portugal e confirma que a princípio ficou surpreendido por estar a ser lido fora da Islândia: “Quando comecei a publicar romances nunca me ocorreu ser traduzido em países sobre os quais nunca tinha pensado antes. No entanto, creio que a literatura pode ser local e ao mesmo tempo mundial desde que os livros sejam interessantes pela sua atmosfera e não pela sua situação geográfica.”

Mesmo sendo o cenário do romance O Coração do Homem o de um lugar estranho, ventoso e frio, para Stefánsson isso não limita as personagens nem a história que conta: “Este é um lugar da Islândia bem diferente do que nós próprios conhecemos, mas um bom escritor quer sempre descobrir algo diferente da sua vida do dia-a-dia porque escrever é explorar. O cenário não me importa, pois as pessoas são iguais em toda a parte do mundo. O coração nunca muda!” Ou seja, diz, “para os portugueses deve ser interessante ler sobre algo muito diferente de onde vivem”. O importante, acrescenta, em cada livro é a “atmosfera e o cheiro e não a localização, daí que seja muito importante a tradução pois ajuda a contextualizar com as palavras do próprio país.”

Aproveita para fazer um comentário quase político: ” Imagine-se que pessoas como Donald Trump liam livros; em vez de acabar como um idiota fascista e irresponsável compreenderia melhor o mundo. Quem lê boa literatura fica um ser humano muito melhor.”

Voltando ao cenário do romance, o autor nega que tenha querido fazer um romance histórico: “Passa-se há um século e mudou muita coisa entretanto na Islândia, pois deixámos de ser tão primitivos. O que quis foi reproduzir a época e não a realidade em excesso, porque se nos preocupamos muito com os detalhes esquecemos o que devemos mesmo escrever. É perigoso ficar perdido nos pormenores em vez de retratarmos as pessoas, porque o leitor vai deixar de olhar para as personagens como de carne e osso.”

Questiona-se se o facto de antes ter sido poeta lhe facilitou a abordagem de sentimentos como os que abundam na trilogia, ao que Stefánsson responde negativamente: “Ser poeta foi um princípio que nem é positivo nem negativo. Enquanto escrevia o primeiro volume achei que a poesia e prosa eram muito diferentes, mas vim a perceber que o não são. Encontrar este registo deu-me muito trabalho, apesar de ter vindo por si ao fim de uns dias, o que me surpreendeu por ter encontrado a minha voz desse modo.” Talvez por escrever a primeira versão à mão, diz-se: “É a única forma como consigo escrever e não vejo razão para mudar.”

O início desta trilogia, com os anteriores Paraíso e Inferno e A Tristeza dos Anjos, começou ao ouvir num programa de rádio a história de uma mulher independente e rica que vivia no norte da Islândia. Entretanto, foi continuando a escrever os seis romances anteriores e só quando sentiu que era o tempo certo é que se pôs ao trabalho: “Avancei porque achei que estava destinado a escrevê-la, mesmo que receasse a falta de experiência e de técnica para a colocar num cenário de época.” Como não é bom a fazer planos – “quando estou em viagem perco-me sempre” – logo se sentiu desnorteado. Mas isso não o preocupou: “No princípio era só um livro, mas como desconhecia o modo de o terminar fui continuando a escrever. Ninguém sabe ao que vai antes de começar e as ideias foram surgindo, com as personagens a exigirem mais espaço. Inicialmente, tinha um livro muito diferente na cabeça, mas bastaram 200 páginas para me convencer que havia material para dois livros e depois três.”

No que respeita a influências, o escritor islandês não as recusa e vai buscar a imagem do seu país para as explicar: “Todo o escritor é uma ilha que está rodeada por um grande oceano de literatura que constantemente o influência. Até por autores que nunca leu, que vêm através dos que conhece e que foram influenciados por essas escritas. A única referência vital para mim foram os muitos poetas que li, bem como dois escritores: Knut Hamsun, um dos primeiros gigantes na minha vida; e antes de ter começado esta trilogia, José Saramago e o seu romance Memorial do Convento. Para mim, talvez, os dois autores mais importantes do século passado devido ao estilo que criaram. Que é tão poderoso e profundo que conseguem fazer uma proposta de linguagem única. No caso de Saramago, foi uma dádiva pois fez-me compreender que é preciso fazer algo mais do que escrever e obrigou-me a questionar a necessidade de produzir algo novo.

Sendo um dos poucos autores islandeses a ser traduzidos em Portugal, pergunta-se a Stefánsson sente mais responsabilidade. “Não”, garante com pena: “É perigoso se estamos preocupados com o lugar dos nossos livros no mundo. Isso mata-nos. Já chegam as dúvidas que temos enquanto se escreve, pois entre tantos milhões publicados deve-se ter uma voz própria. Por isso, enquanto escrevo, só penso no que faço e não nos leitores ou onde é que eles vivem.”

Fonte: DN

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