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Mário Castrim honored in São Luiz

O Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz acolheu em 30 de maio uma emotiva sessão de homenagem ao conhecido crítico de televisão, escritor, poeta e jornalista Mário Castrim, falecido em 2002.

Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura, marcou presença no espectáculo, composto por vários depoimentos, momentos musicais e intervenções do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do ministro da Cultura, Luis Castro Mendes, e do Secretário Geral do PCP, Jerónimo de Sousa, partido em que Mário Castrim militou.

“Isto é realmente uma festa de amigos, são pessoas de quem o Mário gostava muito”, afirmou no início Alice Vieira, que com o maestro António Vitorino e Miguel Leite apresentou o espectáculo. E com emoção na voz, a escritora leu o último poema que o seu companheiro escreveu, oito dias antes de falecer: 

Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério.
Enfim, não digo que. É natural.
Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos.
Filhos, sejamos práticos, sadios.
Nada de flores. Rigorosamente.
Nem as velas, está bem? Se as acenderem,
sou homem para me levantar e vir
soprá-las, e cantar os “Parabéns”.
Não falem baixo: é tarde para segredos.
Conversem, mas de modo que eu também
oiça, e melhor a grande noite passe.
Peço pouco na hora desprendida:
fique eu em vós apenas como se
tudo não fosse mais que um sonho bom.
 
Combatente terno

“Um persistente lutador pela liberdade e pela democracia”, assim se referiu Miguel Leite ao homenageado, “ele foi o Fernão Lopes numa época da vida do nosso país”, disse Vitorino d’Almeida.

“Era uma espécie de norte, de bussola”, diz Manuel Luís Goucha sobre aquele que terá sido o mais influente crítico de televisão durante décadas, particularmente ainda no período da ditadura, nas décadas de 60 e 70 no vespertino Diário de Lisboa.

“Mário continua a viver em mim e só morrerá quando o meu coração e a minha memória se apagarem”, afirma ainda, sentimento que fez unanimidade numa noite mágica, plena de emoção. 

“Uma pessoa extraordinária para Mário Zambujal, que exalta a sua fibra de “combatente rijo” mas ao mesmo tempo portador de “uma grande doçura”, qualidade que também é evocada por Correia da Fonseca.

“Derramava fraternidade e ternura em torno de si, com uma fraternidade que se diria caudalosa”, sublinhou o escritor e jornalista, também ele crítico televisivo, que lembra as suas crónicas como “um mural de resistência” e sublinha em Mário Castrim “a coragem do seu trabalho de jornalista, a eficácia arrasadora da sua ironia e a firmeza do cidadão.” 

Antes João Braga cantou fado, depois, o encenador João Lourenço, que trouxe o grupo de teatro Intervalo para uma breve encenação das “Histórias com Vida” de Mário Castrim, lembrou que o conheceu ainda como professor Manuel Nunes da Fonseca (o nome com que assinou as suas obras é, de facto, um pseudónimo). 

Seguiram-se Helena Sacadura Cabral, Vitor de Sousa com leitura de poesias do homenageado e João Malheiro, que não pode deixar de convocar a qualidade de benfiquista de Mário Castrim.

Já Miguel Leite tinha revelado a intenção de ser produzido um DVD sobre o espectáculo, para o qual o grupo de amigos conta com o apoio da Câmara de Lisboa e do PCP, e a vontade de ser preparado um documentário sobre a vida do Mário Castrim. “Uma vontade, um projeto para que a homenagem vá mais além deste momento”, disse. 

António Vitorino d’Almeida, que acompanhou ao piano Vitor de Sousa, juntou-se ainda a Paulo Jorge Ferreira no acordeão e à voz de Nádia Sousa para a interpretação de três famosos temas franceses, a música que, segundo Alice Vieira, mais encantava o seu marido.
 
Um exemplo

Para Jerónimo de Sousa, Mário Castrim era “um homem comprometido com o seu povo pela liberdade” e será sempre “uma referência desse combate que assumiu e travou até aos últimos dias da sua vida”. 

Um homem “raro e polémico” mas também um “cidadão exemplaríssimo, disse Catarina Vaz Pinto, para quem Mário Castrim “foi a consciência de muito gente, de muitos cidadãos que sonhavam com uma televisão à altura das carências deste país.”

A vereadora fez uma referência à sua vasta obra em diversas áreas e destaca a “figura da vida cívica e cultural do país e militante do Partido Comunista com muitas décadas de corajosa intervenção”, para afirmar que permanece como referência histórica na crítica de televisão, “exemplo a considerar pelas sucessivas gerações de críticos, mas também ficará na memória como homem culto, lúcido e fiel às suas convicções. 

Catarina Vaz Pinto lembra ainda que foi homenageado pela cidade de Lisboa em Setembro de 2005, com a atribuição de um topónimo numa rua do Lumiar, perto da Avenina Maria Vieira da Silva. 

Marcelo Rebelo de Sousa lembra-o na dupla qualidade de cidadão e de Presidente da República, fazendo a respectiva distinção. Enquanto cidadão recorda o homem que marcou a sua geração nos anos de 65 a 74, apesar de se situar “noutra parte do hemisfério da vida política”.

Era, diz, “uma referência permanente, diária, constante, esperada, respeitada e  poderosa, que sabia compreender uma realidade nova da vida portuguesa, a televisão.” 
Já o Presidente da República considera-o “o percursor de uma nova realidade mediática em Portugal”, que, através da sua prosa, “abriu caminhos de liberdade e democracia, de Abril.”

Figura essencial para a cultura portuguesa, professor, “pedagogo com um poder de comunicação inultrapassável”, Marcelo afirma a tripla dimensão de alguém que “soube aperceber-se do tempo que estava a chegar e contribuir para a construção desse tempo, ao mesmo tempo lutando pelo que era essencial para o enraizamento democrático”. E isso justifica que o Presidente da República o homenageie e lhe agradeça, diz. 

No final o maestro voltou ao piano para encantar a assistência com uma melodiosa e suave interpretação do Hino Nacional, que dedicou ao seu amigo Mário.

Para além da crítica televisiva, Mário Castrim destacou-se na escrita de literatura infanto-juvenil como como “Histórias Com Juízo”, “Estas São as Letras”, “A Girafa Gira-Gira” ou “O Lugar do Televisor”, em obras para teatro como “Com os Fantasmas Não se Brinca” ou “Contar e Cardar”, na poesia com “Viagens”, “Nome de Flor” ou “Do Livro dos Salmos”) e no ensaio (“Televisão e Censura”, “Histórias da Televisão”).

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